sábado, 24 de novembro de 2018

é isto que sinto por ti

Conto até cem e, se não chegares antes dos cem, vou-me embora. Não chegaste antes dos cem. Conto de cem a um e, se não chegares antes do um, vou-me embora. Não chegaste antes do um. Conto dez automóveis pretos e, se não chegares antes dos dez automóveis pretos, vou-me embora. Não chegaste antes dos dez automóveis pretos. Nem antes dos quinze taxis vazios. Nem antes dos sete homens carecas. Nem antes das nove mulheres loiras. Nem antes das quatro ambulâncias. Nem sequer antes dos três corcundas e, entretanto, começou a chover.
António Lobo Antunes

terça-feira, 22 de abril de 2014

Particular


Tenho noção que não sou, nem nunca serei a pessoa mais expressiva do mundo, nem a mais amorosa. Sou sarcástica, sou irónica e às vezes posso ser mal interpretada. A minha dificuldade em partilhar o que sinto facilmente é confundida com falta de confiança nos que me rodeiam. Gosto de deixar o passado onde está porque em frente é que é o caminho, e por isso não mexo e remexo em histórias do que já lá foi. Se não gosto digo sem grandes rodeios e não sou de me meter, de puxar o assunto à baila para tirar nabos da púcara. Se me quiserem dizer, digam, detesto aquela malta, falsamente preocupada, que praticamente nos arranca da boca as palavras, só para depois, de língua venenosa as espalhar por aí. E assim dou-me sem me dar, porque desta forma me entrego muito às pessoas sem que elas se apercebam sequer do tanto que as adoro. Não consigo mudar.

segunda-feira, 21 de abril de 2014

Oh... Porquê?


Sendo amanhã dia de regressar à escola, eu encontro-me em estado de negação. Dei-me ao trabalho até de ir contar os dias que faltam para que o Verão finalmente chegue (e para mim ele começa no dia em que o período acaba, que se lixem os solstícios, pode até chover torrencialmente que tudo além de treze de Junho é lindo e resplanescente), são 59 os degraçados. O problema não são as aulas em si, não são os professores, sinceramente nem sequer tenho nada contra o edifício. O meu problema são as tardes de estudo, as noites antes dos testes, o stress que quer queiramos quer não, acaba por surgir, os falhanços que acontecem, as manhãs fora da cama. Tem os momentos que compensam, os intervalos entre amigos, os risos, os bilhetinhos passados de mão em mão durante as aulas, aquele teste com uma nota redondinha que te deixa com um sorriso na cara, aquela aula divertida, o furo que tiveste, uma hora de almoço diferente, todos aqueles pormenores que nos fazem apaixonar um pouco mais por esta vida. Pronto, vá eu até aceito que escola tem que recomeçar, mas primeiro preciso de mais uma semaninha de férias para pensar no assunto...

sábado, 19 de abril de 2014

Casas e botões


Vocês dois não são mais do que uma manta de retalhos, pedaços de passado, tecidos de segredos de vivências, pontos daquilo que poderia ter sido no fim, mas sabem que mais? Aceitem que estão desfiados, que há em tudo isto um buraco demasido grande para que possa ser remendado. A malha já se desgastou, os nós tornaram-se laços, e eu também. Já sou grandinha, e estou farta. Não preciso de um cobertor.

quinta-feira, 17 de abril de 2014

Day off


Hoje é dia de aproveitar e ir às compras com a mamã.
É sempre bom.

quarta-feira, 16 de abril de 2014

terça-feira, 15 de abril de 2014

Vigilante


Sento-me junto ao passadiço num muro de pedra. A três metros de mim está um miúdo. Não terá mais de seis anos, talvez cinco, está sozinho, irrequieto, sentado todo enrolado sobre si mesmo, os pés mal tocam na areia da praia, o mar ruge baixinho lá longe. Levanta-se de repente e os meus olhos prendem-se nele como ímanes. Descalça-se devagar, daquela forma desastrada mesmo própria das crianças. Não sorri, está apenas ali, devorando o mundo com os olhos. Caí de meias na areia daquela praia onde as gaivotas não posam, pontapeia o ar em seu redor com violência, e depois limita-se a andar. Um metro para a direita, um metro para a esquerda, não saí dali, mas é como se não ficasse. É uma criança, mas aos meus olhos é um enigma abandonado despreocupadamente. Digo a mim mesma que ficarei até que ele parta, até que alguém chegue, mas passa-se muito tempo, comigo ali sentada de pernas oscilando levemente ao sabor da brisa e nenhum de nós vai a lado algum. Nada acontece, e eu que sou uma mera espectadora começo a pensar no impacto que um simples puto teve sobre mim, como estou ali presa observando, pensando em como é estranho que não sorria como eu fazia, como ainda faço, daquela forma ingénua e despreocupada. Estranha-me que não enterre os dedos na areia para sentir o calor invadir-lhe o corpo como um formigueiro que nos envolve. Estranha-me, mas percebo, está sozinho, e a solidão consome-nos, engole-nos inteiros sem misericórdia. É aí que entendo, na vida, na vida muitas vezes vai parecer-nos que estamos abandonados à mercê do destino, mas haverá sempre alguém, alguém que se se limita a ver, que por vezes deseja intervir mas não tem como o fazer, porque às vezes falta-nos a coragem. Todos nós temos uma sombra vigilante. E o que eu mais me arrependo de não ter feito hoje, é ter ensinado aquela criancinha a ser feliz.

domingo, 13 de abril de 2014

Sombra



Apego-me às pessoas, mas tenho dificuldade em deixá-las entrar na minha vida. Em confiar.  E por isso às vezes afasto-a, perco-as, porque os muros que ergui para me proteger do mundo são tão altos. Não sou uma pessoa de segredos, mas às vezes gostava de conseguir partilhar mais de mim. Só que o medo de sair magoada outra vez é demasiado.

Para trás


Estão todos a seguir em frente, a afastar-se, a mudar.
Eu continuo aqui.

sábado, 12 de abril de 2014

Verano


Tinha saudades deste Verão adiantado, de abrir a janela do carro e sentir o vento bater-me na cara, passar-me entre os dedos, chicotear-me o cabelo. Tinha saudades de andar de t-shirt na vinha, de ouvir música ao sol e ler um livro a uma sombra, de andar descalça por casa e de sentir o mosaico frio sob os meus pés. Gosto deste tempo, desta vida, gosto de por agora poder voltar a respirar com calma, profundamente, sem este ardor no meu peito. Gosto do Verão, venham mais dias assim. Venha paz.